A primeira coisa que aprendemos é a nos comunicar e, ironicamente, passamos a vida toda tendo problemas com ela. Dominamos a língua? Não sabemos nos comunicar com nossos pais. Falamos irrefletidamente, às vezes ásperos, às vezes brutos, às vezes insensíveis. Escolhemos as palavras mais cruéis para quem, no anonimato, deu seu melhor e, melhor que ninguém, mostrou todo seu afeto — não por palavras vazias, mas com ações concretas.
Falhamos em nos comunicar porque não entendemos nem mesmo o que somos e o que sentimos. Falhamos quando as palavras são difíceis, as barreiras são intransponíveis e, principalmente, quando os corações estão distantes. Gritamos, mas não há compreensão.
As palavras são um eterno quebra-cabeça cujas várias combinações tentam descrever o que vivemos. Não é fácil colocar os sentimentos em papéis, separar por vírgula e colocar pontos finais. O que sabemos é que, com certeza, temos momentos de exclamação, mas definitivamente são mais breves do que gostaríamos.
Olhares sinuosos, inclinar a cabeça, bater os dedos na mesa, franzir a testa e entortar os lábios também comunicam. O corpo transmite mais do que gostaríamos de forma não intencional — quer dizer, às vezes intencional mesmo, porque não nos controlamos e, por vezes, fazemos questão de deixar claro o que pensamos. Não é à toa que me perco nessas linhas imaginárias e os olhos ressecam de tanto escrever (desculpe a intromissão, querido leitor). E tudo isso para tentar dizer, tentar falar e torcer para alguém ouvir.
Mas ele não mente, não disfarça e nem faz rodeios quando o coração já entendeu o que o cérebro está tentando processar. Aaah, o olhar… Não importa se você foi confuso, se não foi claro o suficiente; os olhares já contaram há muito tempo. Já sei, não quer dizer? Não diga — e também não cruze os olhares. Não deixe que eles te denunciem. Às vezes tão ternos, profundos, soltos, saltitantes, tão confusos e tão viciantes.
Com certeza saiba que, se nos meus últimos momentos eu não puder dizer que te amo, saiba que não tive tempo. E, antes que os brilhos dos meus olhos se esvaziem, quero que os seus também digam o mesmo.
Não me deixe partir sem me dizer o que aconteceu. Não me conte meias verdades ou omita os sentimentos passados. Me dê a oportunidade de conhecer e de poder me comunicar com o outro lado da parede, de saber como teria sido. Não naufrague as palavras no abismo do “e se”. Deixar de se comunicar é dar espaço para dúvidas e para terceiros; é nadar no mar de possibilidades e morrer na praia do que era pra ter sido.
