Somos livres, de fato?
Ou seguimos acorrentados à rotina, às certezas que inventamos sobre nós mesmos,
à reputação que outros bordaram em nossas costas
e às escolhas que nunca foram nossas?
Quem somos quando o mundo silencia
e, enfim, sobra espaço para existir?
Quando a solidão não pesa, mas revela,
e o tempo — pela primeira vez — é nosso?
Quanto de nós é voz própria,
e quanto é eco?
O que sabem eles sobre viver?
O que sabem eles sobre amar?
Cada um traz uma receita pronta,
um atalho brilhante,
um caminho cimentado.
Mas quem pavimenta o nosso?
Queremos evitar quedas antigas — é verdade —,
mas viver como marionetes é viver?
Não é melhor aprender a ouvir a própria consciência,
a própria pulsação?
Eu estava há horas vagando pela orla
e contando para Deus o que estava acontecendo:
homens imperfeitos guiando outros homens imperfeitos
para a própria infelicidade.
Ele riu e disse:
“Eles entenderam tudo errado!”
Prometeu resolver, mas só depois de lidar com uma nuvem teimosa,
que se recusava a carregar chuva.
Mandara um anjo técnico verificar
e ficou ali, comigo.
Confessei que tinha poucos pedidos na vida,
mas que aquela conversa —
aquela simples conversa —
era um desejo antigo. E ele atendeu, vai entender!( eu incrédula tentando processar o que tava acontecendo)
Ele ficou curioso:
“Muitas pessoas pedem dinheiro, saúde, prosperidade, pedem para ir ao céu…
Imagine só alguém se convidar para morar na sua casa sem ser chamado?
É muita invasão. Vocês não gostam disso… imagine eu!”
(triscou no meu braço sabendo que eu concordaria)
E eu tive que concordar.
Vai que alguém derruba um jarro celestial
ou esbarra em um artefato angélico
de valor imensurável?
Eu não queria nada disso.
Sabia meu lugar.
Queria respostas.
Queria a minha história contada pelas palavras Dele.
Queria saber o que eu tinha deixado passar batido.
Queria sentido.
Eu estava envergonhada pelas atitudes de outros
e por como a história tinha se desenhado tão feia,
tão cheia de mentiras e sofrimentos.
Ele continuava reflexivo, olhando para o mar.
Cabisbaixo, percebi que o entristeci —
não porque perdi a fé Nele,
mas porque perdi a fé no ser humano:
tão frios, tão arrogantes.
Alguns querem fortuna.
Alguns querem fama.
Alguns querem poder.
Alguns querem apenas participar do jogo.
Ele disse que eu deixei de ver o brilho.
Porque é o fôlego que faz o corpo ser útil;
é a melodia que faz a música bonita;
é a beleza das cores que as torna únicas.
E eu tinha deixado de ver —
não de propósito, Ele sabia.
Ele acompanhara tudo.
Sabia que outros tinham usado a própria liberdade
para me fazer refém da minha.
E isso não era bom.
Disse que sempre deixa rastros
para os bons de coração seguirem;
que, não importa o quanto tudo esteja falido e quebrado,
sempre há indÃcios de que Ele está ali.
Eu sorri.
Eu tinha visto.
Lembrei das vezes em que me perdi
em uma música que parecia feita para mim;
da respiração que puxei para enfrentar dias difÃceis;
do fascÃnio de procurar constelações no céu negro;
das respostas que busquei na borda infinita do mar.
Ele comentou que tudo tem consequências — boas ou ruins —,
e que cada um conhece a dor e a alegria que carrega.
Minha fé na humanidade tinha se perdido
como um balão na Tailândia:
no começo, uma chama linda brilhando no céu noturno,
mas que logo se apagou e desapareceu sem aviso.
“Venha comigo hoje”, Ele convidou.
“Vou fazer umas constelações. Pode ser que você goste.”
E eu fui.
Não tinha planos —
e entregar meu tempo a Ele
pareceu o uso mais livre da minha liberdade.
De lá,
eu brilho forte.
